quarta-feira, 11 de outubro de 2017

quando uma mulher dorme

na madrugada de quarta para quinta sonhei que negava ser chamada de mãe-para-a-posteridade, sonhei com a negação de um nome.
sonhei, antes, com a possível ligação de um amor.

"Deus é um objeto de fé?" - ele pergunta.
antes de dormir sempre compomos conversas como quem compõe um fio de memórias, um fio que nos liga.

não soube o que responder, é difícil falar de fé através de objetos que manuseamos fora de nós, mas, no mesmo instante em que a pergunta foi feita, pedi para que desligasse as luzes e recolhi os pés pra dentro da coberta. dalí avistei um sorriso que começava a partir dos olhos, um sorriso que tentava fazer com que não fosse visível o instinto de recuo por não saber________

"Quer um chá?" - ele me perguntou enquanto se despia e ouvia o som do meu silêncio.




Aceno que sim.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. 


Paulo Mendes Campos

quarta-feira, 2 de março de 2016

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

das atividades práticas do silêncio

a outra face do texto era um outro cômodo da casa.
estávamos nele como quem segura - com a boca - um sonho que treme:

- não podemos esquecer que ainda temos nossas mãos, firmes.
- não podemos jamais esquecer que temos umas as outras, mulheres.

e continuando

alguém nos olhava pelo canto da porta
era um bicho chamado ---------------------------------------------------- coragem.

enquanto ele nos mirava não falamos nem esboçamos sons, só o encaramos de longe enquanto nossas mãos se entrelaçavam em um ato de entendimento mútuo.



estamos juntas
na força
e seguimos

terça-feira, 10 de novembro de 2015

dois braços

é preciso que saiba que a alma deve passar por algumas purgações,

e a primeira delas é a impaciência do amor.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

amplificar, pouco a pouco.



Hoje recebi uma carta por baixo da porta
era a letra de Tarcísio, e dizia:


esta manhã
estava eu inconsolável por abandonar a minha sorte na mão das decisões alheias.
estava sem braços, sem voz, na necessidade urgentíssima de saber o que une os seres se não há vontade de permanência.
foi então que olhei um broto nascendo sozinho naquele vaso sobre a mesa onde a terra já não sentia o gosto de água há uns bons dias e pensei : é tão descansável saber da existência de uma semente brotando em um jardim quase sem esperanças.



fechei a carta, respirei fundo, e tive vontade de sussurrar no ouvido de Tarcísio as seguintes palavras:

não há seres absolutos, caro amigo. 
mas se existe algum laço que nos une, esse laço chama-se:


                                                                                                           so-li-dão.

terça-feira, 14 de abril de 2015

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

se o espaço se excluísse

hoje, ao acordar, finalmente entendi
depois de algum tempo
que habito um novo endereço.

perguntei então a Tarcísio qual seria o lugar ideal para, enfim, presenciar o encontro entre a extensão do pensamento e a manifestação da fala.



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ele manteve-se em silêncio
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e continuou por horas,
com o olhar fixo no movimento das árvores que eram levadas de um lado para o outro pela força do vento


foi aí que não tive dúvidas

por mais que eu queira, sem forças, desligar-me das relações pelas tensões que elas exercem
há uma busca incessante, suplicante, e humana
por alguém que tenha o lugar de sopro em meu destino


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

por onde anda a vontade quando ela não está?

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Do Livro do Desassossego

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